segunda-feira, 1 de junho de 2009

Texto para ator e atriz


O MAPA DO CORAÇÃO DO MUNDO

de Ruy Jobim Neto

Personagens:
JEAN
ELISE

O leito de amor de um cartógrafo. Um dossel feito de mapas antigos nele projetados. No meio dos lençóis, está Elise, bela mulher pragmática e misteriosa. Nesta noite, Elise se encontra em fogo. Jean está sentado numa cadeira, à parte, no cenário, com vendas nos olhos, pés e mãos amarradas. Em volta dele, velas, muitas velas. Uma música folclórica da Europa oriental é ouvida, ao fundo.

ELISE
Diz.

JEAN
Ancoradouro.

ELISE
É só o que você consegue pensar?

JEAN
Elise. Estou vendado. Os pensamentos me fogem.

ELISE
Diz de novo.

JEAN
(lambendo os lábios) Promontório.

ELISE
Entre os lençóis?

JEAN
Isso não se faz...

ELISE
Você ainda se lembra de mim?

JEAN
De cada passagem.

ELISE
Como eu fico no verão?

JEAN
As marés enchem. A sua pele se arrepia com o vento sul.

ELISE
E o farol?

JEAN
O farol?

ELISE
Sim. Aquele que anuncia as naus.

JEAN
O farol...

ELISE
Deixo minhas madeixas cairem. Elas te dizem alguma coisa?

JEAN
Cachoeiras.

ELISE
Plenas de água. Elas esperam por ti, mon cher.

JEAN
Isso não se faz. Me tira daqui.

ELISE
Não! (acalma-se. Vai até ele languidamente) Primeiro me mostre o caminho.

JEAN
Um norte?

ELISE
Deixe que tua criatividade te conduza.

JEAN
As estrelas me conduzem.

ELISE
Isso! As estrelas! (olha para cima, procura) Como é mesmo o Cruzeiro do Sul?

JEAN
Não se consegue ver daqui.

ELISE
Por que não? Se você me indicar a posição...

JEAN
(interrompe) Não se consegue ver daqui, Elise.

ELISE
Não me conformo. Todas as constelações estão lá, menos essa?

JEAN
Não se consegue ver o Cruzeiro do Sul deste hemisfério, meu bem.

ELISE
(olha pra ele, imediatamente) Você disse.

JEAN
Disse?

ELISE
Oui. Você disse “meu bem”. Significa “ma cherie”.

JEAN
Elise...

ELISE
Diz de novo.

JEAN
Me tira daqui primeiro.

ELISE
Não. Primeiro você diz.

JEAN
Enseada.

ELISE
Não.

JEAN
Afluente.

ELISE
Também não.

JEAN
Azimute.

ELISE
Azimute é bonito.

JEAN
Me tira daqui.

ELISE
Nem pensar.

JEAN
Isso não faz o menor sentido.

ELISE
Claro que faz. Para mim. (volta para o dossel)

JEAN
Vão pensar o que de você?

ELISE
Que sou a amante de um cartógrafo. Que ele desenhou em minhas costas o mapa do coração do mundo.

JEAN
Se teu pai chega...

ELISE
(retorna para JEAN) A preocupação maior, mon cher, não é quem vai pensar o que de uma menina em cujas costas tem um mapa desenhado. A questão é: quem vai comprar e a que peso a pele dessa garota.

JEAN
Teu pai jamais venderia tua pele.

ELISE
(encosta-se em JEAN, desnudando as costas, deixando ele sentir sua pele no rosto, há um mapa desenhado nela) O que não se faz nesse mundo por uns dobrões de ouro, não é mesmo?

JEAN
Não seja louca.

ELISE
(deixando-o louco, ele vai falando palavras simultaneamente) A pele de uma mulher. Ela guarda e deságua tesouros inesquecíveis.

JEAN
Astrolábio. Latitude. Planisfério. Mercator.

ELISE
Infindáveis. Uma mulher sabe e reconhece o calor de seu homem. Ela sente no olhar. Na vastidão, nos afagos. Em cada toque de seus dedos.

JEAN
Piri Reis. Coordenadas. Montanhas. Cordilheiras. Foz. Estuário.

ELISE
Ele se perde na extensão das horas, nas ondas do mar e nos ventos que sopram das montanhas. A mulher, no afã da espera, renova as lembranças de seu olhar cativo, de seus abraços impulsivos, de sua imensidão quase inesgotável.

JEAN
Arquipélago. Bósforo. As Colunas de Hércules. Gibraltar!

ELISE
(se afasta repentinamente, ele quase cai) E no entanto, um inusitado pombo-correio, que avise a sua chegada pelo mar, está também anunciando o amor que desce as corredeiras. O amor que suga as entradas, que revolve os fios de cabelo como se fossem cristais.

JEAN
Você enlouqueceu.

ELISE
Não. Muito pelo contrário, Jean. Você enlouqueceu. E no que perde todas as referências, fica sem voz, sem rumo. Fica, assim, docemente, aos meus pés.

JEAN
Teu pai vai chegar.

ELISE
O doce sabor dos trópicos te fez mais meu. Você viu praias que eu nunca imaginei em meus delírios. Viu florestas e animais que minha íris jamais atinou. (aproxima-se) Eu, que me desmancho em devaneios, sei que meu homem está à mercê das correntes e maresias. (ela o enlaça em palavras, ele perde os sentidos com o que ouve) À mercê das sereias e animais fantásticos. Mas não precisa ir muito longe, não. Eu sou tua perdição de tristes cartas jogadas ao mar, de nuvens que não rebentam na costa e nos recifes, sou teu sonho de beribéri, teu pesadelo de ouro e prata. (beija-o)

JEAN
Elise.

ELISE
Meu pai vai chegar, sim. E quando ele entrar, verá que sua filha se verteu em mulher aos braços de um homem que revirou as águas, que conquistou os matizes do céu, que entendeu o vôo das andorinhas e que transpôs tudo isso para a pele dela. (tira a venda dele) Mon cher. (ela pega uma vela)

JEAN
Me tira daqui, Elise.

ELISE
Não. A prova maior de seu amor por mim não está em seu medo da chama. (aproxima a vela do rosto dele, perigosamente) E sim no desalinho de seu próprio coração, nas carnes loucas que o seu gênero homem não consegue medir em números, tampouco guardar as proporções numa estante. Meu papel-mulher te embala feito mapa em pergaminho. E te põe louco.

JEAN
(seco) Je t’aime. (ela afasta a vela)

ELISE
Meu pai vai chegar, e vai ver que sua filha carrega um mapa. Mas é outro mapa de que ela precisa. Um mistério completo que atemoriza mais do que a linha do horizonte. Mais do que o próprio oceano.

JEAN
Je t’aime.

ELISE
(sopra a vela) Mata-me em tuas dimensões de astrolábio. Faça a tua leitura de meus olhares e beijos. Meça um por um. (abaixa-se suave e languidamente, põe a apagar uma por uma das velas que o rodeiam enquanto fala) Negocie minhas carícias no mercado negro.

JEAN
Je t’aime.

ELISE
(apagando as velas, não olha para ele) Faça amor comigo e terá Petra inteirinha num piscar de olhos. A Petra dos mil anos, em tua pequena Elise de olhos vagos e vinhos eternos.

JEAN
Me tira daqui, Elise.

ELISE
(levanta-se, fica de pé ao lado dele, superior à presa) Você não entendeu nada, Jean. Nem mesmo tuas frases escorregadias me comovem agora.

JEAN
Tem um navio me esperando.

ELISE
Um navio. O chamado para o infinito.

JEAN
Preciso partir, ma petite.

ELISE
Ma petite. (começa a desamarrá-lo) Afinal uma palavra de alento nesse céu que nos abriga.

JEAN
Te mandarei cartas.

ELISE
Te preparei um vinho.

JEAN
Escreverei para sempre.

ELISE
Você bebeu enquanto dormia.

JEAN
Te contarei aventuras.

ELISE
Vai morrer em poucas horas.

JEAN
O quê?

ELISE
(lânguida) Um veneno do amor que te deposito. As horas cruas em desassossego de espera infinda. Um regalo, mon cher.

JEAN
Você é louca.

ELISE
(aproxima-se, olha para ele, beija-o) Vou te abreviar a vida para que meus dias sejam doces. Te amarei para sempre.

JEAN
Não acredito em palavra alguma do que diz.

ELISE
Acredita, sim. Meu pai vai chegar, verá a filha dele em devassidão da carne, ela com as costas pintadas para o mercado negro. Um mapa que ela sempre quis. As noites do porto são bastardas, como um dia foi Inês. (desata-o completamente)

JEAN
Inês.

ELISE
A de Castro. Ela foi estrangulada.

JEAN
Não. Degolaram ela.

ELISE
(docemente desafiadora) E você? o que irá fazer comigo, meu cartógrafo?

(tempo. Ela se posiciona. Jean começa a estrangulá-la em pé. A princípio, respirando com dificuldade, Elise esboça um sorriso maroto, que em seguida se transforma em temor declarado apenas no olhar, ela percebe o fim iminente. Quando ele a solta. Tempo. Ela põe suas próprias mãos no pescoço, protegendo-o, e respirando de forma ofegante, depois vai acalmando, quando ele já vai pegando algumas roupas e preparando uma saída)

JEAN
É bom que teu pai não te veja por aqui. Te deixarei a chave sob o dossel.

(Elise continua com as mãos no pescoço, vai tirando paulatinamente. Jean sai. Ela olha na direção em que ele se foi. Se vê sozinha. Começa a rir, mistura choro ao riso, começa a mexer nos cabelos compridos, e olha para o dossel. Segue em direção a ele, lentamente. Senta-se na cama e encontra a chave. Respirando ofegante, Elise olha para o objeto e faz menção de que o vai engolir. Respira forte, abre a boca até quase colocar a chave lá dentro, mas desiste. Fica olhando para a chave)

ELISE
Rumo Norte. Não. Sudoeste. Para Ceuta, Ilhas Baleares, não, para as Canárias, à toda vela. Azimute é caminho, é direção. O ponto de encontro da linha da estrela maior. Maior que todas as outras. Maior que o coração da gente. Maior que a própria vida. (deixa a vela na cama, segue em direção a uma garrafa de vinho escondida atrás, junto com uma taça quase no final. ELISE sorri, olhando para a taça) Azimute é caminho, é direção. (olha na direção em que ele se foi) Devia ter acreditado em mim, mon cher. Uma mulher em chamas sempre sabe o homem dela. (olha para a taça) Azimute é caminho. (faz menção de beber, mas pára imediatamente com o copo diante da boca, sem tocar os lábios nele. Sorri, afasta o copo, olha de novo em direção para onde Jean se foi, levanta a taça) E direção.

(blecaute)


FIM
(C) 2009 Ruy Jobim Neto, todos os direitos reservados / all rights reserved



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3 comentários:

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